A Wine Paris, feira de vinhos que, entre 9 e 11 de fevereiro reuniu mais de seis mil expositores em Paris, contou com a presença de 60 países, Portugal incluído. Este ano, estiveram representadas todas as regiões vitivinícolas nacionais, com o espaço de exposição Wines of Portugal a ter aumentado 2,5 vezes em apenas três anos. Foram 12 pavilhões coletivos e aproximadamente 300 empresas expositoras, que saíram de Portugal à conquista dos cerca de 60 mil visitantes que passaram pelo certame.

Portugal reforçou a sua presença na Wine Paris e já é um dos países mais representados: o que é que isso significa para o posicionamento dos vinhos portugueses?

A presença reforçada de Portugal na Wine Paris traduz uma estratégia clara: afirmar-se de forma duradoura nos mercados internacionais. Ser um dos países mais representados não é apenas uma questão de volume, é também uma questão de visibilidade. Os produtores portugueses apresentaram-se com uma oferta estruturada, capaz de responder a expetativas muito diversas, em termos de estilos, preços e canais de distribuição. A Wine Paris foi hoje um ponto de encontro onde se decidem referenciamentos, parcerias e orientações comerciais. Portugal encontrou aí um enquadramento eficaz para consolidar a sua notoriedade, mas, sobretudo, onde demonstrou a sua capacidade de se adaptar às evoluções do mercado mundial.

Qual é a importância de salões desta envergadura num momento em que o consumo mundial de vinho está no nível mais baixo desde 1961?

Precisamente num contexto de desaceleração global do consumo, os salões internacionais desempenham um papel ainda mais estratégico. Permitem que os intervenientes da fileira se encontrem, confrontem as suas análises e identifiquem alavancas de crescimento concretas. Um salão como o da Wine Paris não é apenas um espaço de promoção. É um local de trabalho onde produtores, compradores, importadores e distribuidores podem ajustar as suas estratégias, explorar novos mercados e refletir coletivamente sobre o futuro do setor. Quando o mercado se contrai, a necessidade de encontros direcionados e eficazes torna-se essencial. Com a Be Spirits e a Be No, acompanhamos a diversificação dos intervenientes, seja no setor dos espirituosos, das cervejas, das bebidas no/low ou de novos hábitos ligados ao consumo responsável. Esta abordagem reflete a realidade do mercado: hoje, os compradores raciocinam por categorias, não apenas por denominações ou por países.

Rodolphe Lameyse esteve em Lisboa em novembro a apresentar o evento

Rodolphe Lameyse

Na sua opinião, o que contribui para esta evolução negativa do consumo?

A diminuição do consumo não pode ser explicada por um único fator. Às evoluções sociais e económicas somam-se fortes tensões geopolíticas, que têm um impacto direto em toda a fileira. Os conflitos comerciais que se verificaram entre a China, os Estados Unidos e a União Europeia perturbaram os fluxos, criaram incerteza e fragilizaram alguns mercados-chave de exportação, afetando tanto os volumes quanto as decisões de investimento e a visibilidade a médio prazo de muitos produtores.

Paralelamente, os comportamentos de consumo estão a evoluir. A atenção crescente à saúde e aos estilos de vida, em particular entre as gerações mais jovens, leva a que se consuma menos, mas de forma diferente. A isto juntam-se fatores económicos, como a inflação, que afeta o poder de compra, bem como enquadramentos regulatórios cada vez mais exigentes em muitos países. Por fim, o vinho enfrenta uma concorrência crescente de outras categorias de bebidas, por vezes consideradas mais adequadas a determinados usos contemporâneos.

Para a Vinexposium, enquanto organizadora internacional de eventos dedicados a toda a fileira de vinhos e espirituosos, estas evoluções confirmam a necessidade de apoiar os intervenientes num ambiente cada vez mais complexo e fragmentado.

Neste contexto mais instável, a adaptação e a diversificação tornam-se alavancas essenciais para os atores do setor.

A questão de saber se os vinhos sem álcool podem ser chamados de ‘vinhos’ suscita muitos debates. Qual é a posição da Wine Paris em relação a este segmento? Irá crescer nos próximos anos?

Esta questão diz respeito, acima de tudo, às instâncias regulamentares, às interprofissões e aos enquadramentos jurídicos nacionais e internacionais. Não é função da Vinexposium, nem da Wine Paris, tomar posição sobre estes temas. O nosso papel é observar e acompanhar a evolução do mercado.

O segmento de produtos sem álcool ou com baixo teor alcoólico responde a uma procura real, impulsionada por novos hábitos e novos perfis de consumidores. A Wine Paris oferece, antes de mais, um espaço de troca profissional onde estas questões podem ser abordadas, discutidas e analisadas pelos intervenientes da fileira, num quadro estruturado e em conformidade com as regulamentações em vigor.

A nossa responsabilidade é dar visibilidade a estas ofertas, sem as opor ao vinho tradicional. Este segmento continuará a desenvolver-se como uma categoria complementar, com os seus próprios códigos, circuitos específicos e expectativas distintas.

Como vê a evolução do consumo de vinho nos próximos cinco anos?

Não nos encaminhamos para um regresso aos volumes do passado. No entanto, o consumo de vinho continuará a transformar-se. Será mais ocasional, mais qualitativo e mais segmentado.

Os consumidores irão procurar maior significado, rastreabilidade, coerência com os seus valores, mas também uma oferta clara e adequada aos seus hábitos. Para os produtores e marcas, o desafio será menos vender mais e mais vender melhor, adaptando-se a mercados cada vez mais diferenciados. Os salões internacionais terão um papel chave a desempenhar para acompanhar esta transição.