Estudos científicos apontam para milhares de possíveis vítimas num cenário de forte sismo em Portugal, mas os especialistas sublinham que estes números representam cenários de risco e não uma previsão do futuro.

A possibilidade de Portugal ser atingido por um grande sismo continua a ser uma preocupação para a comunidade científica. Ao longo dos últimos anos, vários estudos têm procurado avaliar o impacto que um evento sísmico de grande dimensão poderia provocar no território continental.

Entre as estimativas mais conhecidas estão valores que apontam para 17 mil a 27 mil vítimas mortais num cenário extremo. Estes números resultam de trabalhos científicos desenvolvidos no âmbito da avaliação do risco sísmico em Portugal Continental, nomeadamente por investigadores ligados ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).

Importa, contudo, esclarecer que estas estimativas não significam que a ciência consiga prever o número de mortos de um futuro terramoto. Tratam-se de cenários utilizados para perceber a dimensão que uma catástrofe poderá atingir e, sobretudo, para ajudar as autoridades a preparar respostas e medidas de prevenção.

Vários fatores determinam o impacto de um sismo

Na avaliação do risco sísmico são considerados diversos elementos, entre os quais a perigosidade sísmica de cada região, a vulnerabilidade dos edifícios, a densidade populacional e a hora em que eventualmente ocorreria o sismo.

Também são analisadas as características dos solos, uma vez que determinados tipos de terreno podem contribuir para amplificar as ondas sísmicas e aumentar os danos provocados.

Ou seja, a dimensão de um terramoto não determina, por si só, o número de vítimas. O impacto dependerá igualmente do local onde ocorre, da qualidade das construções e da população que se encontra exposta.

O perigo vai muito além do abalo do solo

Um grande terramoto pode desencadear uma cadeia de acontecimentos com consequências graves.

Além do eventual colapso de edifícios, podem ocorrer incêndios provocados por fugas de gás ou problemas elétricos, cortes de energia, falhas nas comunicações e danos em hospitais, estradas, pontes e outras infraestruturas fundamentais para a resposta de emergência.

Caso o epicentro se situe no mar, existe ainda a possibilidade de formação de um tsunami, com capacidade para atingir rapidamente algumas zonas costeiras.

Foi esta combinação de fenómenos que contribuiu para a dimensão da tragédia provocada pelo terramoto de 1755, que devastou Lisboa e afetou várias regiões, sendo considerado um dos maiores desastres naturais da história da Europa.

Novos estudos permitem avaliar melhor o risco

A investigação científica sobre o risco sísmico em Portugal tem evoluído significativamente. Estudos mais recentes incorporam informação atualizada sobre a população e o edificado, incluindo os Censos de 2021, novos modelos de perigosidade sísmica e diferentes níveis de vulnerabilidade das construções.

Estas ferramentas permitem identificar com maior precisão as zonas mais expostas e apoiar a definição de prioridades para a redução do risco e preparação da resposta a uma eventual catástrofe.

Entre as regiões portuguesas que apresentam maior exposição ao risco sísmico encontram-se Lisboa e o Vale do Tejo e o Algarve, embora o risco não esteja limitado a estas áreas.

A data de um grande sismo continua impossível de prever

Apesar dos avanços científicos, não é atualmente possível saber quando ocorrerá o próximo grande terramoto em Portugal.

A ciência consegue estudar a perigosidade, calcular cenários e identificar as zonas mais vulneráveis, mas não consegue indicar o dia e a hora de um futuro sismo.

A mensagem dos especialistas é, por isso, sobretudo de prevenção: um grande sismo poderá voltar a acontecer, mas estar preparado pode fazer uma diferença decisiva na dimensão das suas consequências.

Um sismo é inevitável. A data, essa, ninguém conhece.

António Rodrigues