Depois da destruição provocada pelo incêndio em Valpaços, é inevitável fazer uma reflexão séria sobre a forma como foi conduzido o combate às chamas. Não se trata de apontar culpados sem que haja um apuramento oficial dos factos, mas de identificar falhas evidentes, retirar lições e exigir mudanças para que uma tragédia desta dimensão não volte a repetir-se.

A primeira grande questão é a coordenação das operações.

Como é possível que um incêndio desta dimensão seja coordenado sem colocar no centro das decisões quem melhor conhece o território?

Quem conhece os caminhos florestais, os acessos, os pontos de água, o relevo, o tipo de vegetação e o comportamento do fogo em cada zona são o comandante e os bombeiros da corporação de Valpaços.

O comandante dos Bombeiros de Valpaços deveria ter assumido um papel central na coordenação operacional, apoiado pelos elementos da sua corporação. Ninguém conhece melhor aquele território do que quem nele trabalha e combate incêndios durante todo o ano. Ignorar esse conhecimento é desperdiçar um recurso essencial e comprometer a eficácia das operações.

Da mesma forma, cada equipa de bombeiros que chegasse de outros concelhos para reforçar o dispositivo deveria integrar um bombeiro de Valpaços. Esta é uma medida simples, praticamente sem custos adicionais, que permitiria orientar rapidamente as equipas, indicar os melhores acessos, localizar pontos de água e evitar perdas de tempo que, num incêndio, podem significar a diferença entre salvar ou perder casas, explorações agrícolas e vidas.

Outra falha evidente foi a logística. Em cada frente ativa do incêndio deveria existir um veículo-cisterna de grande capacidade para abastecer continuamente os veículos mais pequenos. Em muitas zonas apenas estes conseguem chegar devido às características do terreno. Obrigar essas viaturas a abandonar a frente de combate para percorrer quilómetros até um ponto de abastecimento significa deixar o fogo ganhar terreno.

Junto desses pontos de abastecimento deveriam existir equipas de apoio com água, alimentos, bebidas energéticas e meios de primeiros socorros. Muitos bombeiros trabalharam durante horas em condições extremas, sofrendo desidratação, quebras de açúcar, descidas de tensão arterial, queimaduras ligeiras e exaustão física. Quem combate o fogo precisa de apoio permanente para continuar a proteger pessoas e bens em segurança.

Mas o drama não termina quando as chamas são dominadas.

As consequências deste incêndio são devastadoras. Há famílias que perderam a casa onde viviam. Outras perderam os bens de uma vida inteira. Arderam máquinas agrícolas, armazéns, anexos, cercas, animais e milhares de hectares de floresta.

Mais grave ainda, arderam explorações agrícolas que representam o sustento de centenas de famílias. Vinhas, olivais, amendoais e outras culturas foram completamente destruídos. Em muitos casos, perderam-se décadas de trabalho e investimento em poucas horas.

A agricultura é a base da economia do concelho de Valpaços. É dela que vivem muitas famílias e é ela que mantém vivo o nosso território. Por isso, os apoios não podem tardar. Cada dia de atraso representa mais dificuldades para quem perdeu tudo e precisa de recomeçar. É essencial que o Estado e todas as entidades competentes garantam apoios rápidos, simples e eficazes para reconstruir habitações, recuperar explorações agrícolas e devolver dignidade às pessoas afetadas.

Valpaços não precisa apenas de palavras de solidariedade. Precisa de decisões, de responsabilidade e de ação.

É fundamental que seja feita uma avaliação rigorosa da resposta operacional, que se reconheçam as falhas que possam ter existido e que sejam implementadas soluções simples e eficazes: valorizar o conhecimento dos bombeiros locais na coordenação, integrar elementos da corporação de Valpaços nas equipas de reforço, reforçar a logística nas frentes de incêndio e criar melhores condições de apoio aos operacionais.

Os bombeiros deram tudo o que tinham, muitos colocando a própria vida em risco. É precisamente por respeito ao seu esforço e por respeito às populações que perderam casas, património e o seu modo de vida que devemos exigir uma organização mais eficaz.

Porque quando arde Valpaços, não ardem apenas árvores. Ardem casas, histórias de vida, o trabalho de gerações e o futuro de muitas famílias. E isso exige muito mais do que discursos: exige responsabilidade, mudança e respostas imediatas.

PS: Esta carta aberta será enviada ao Sr. Ministro da Administração Interna, à Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, ao Presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Valpaços, ao Comandante da Corporação dos Bombeiros Voluntários de Valpaços, ao Sr. Presidente da Câmara Municipal de Valpaços e aos Srs/as Presidentes das Juntas de Freguesia lesados pelo incêndio.

Ana Gomes