Semana Nacional da Educação Cristã decorre de 2 a 11 de outubro.
O Bispo de Vila Real e presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé alerta para os riscos associados à inteligência artificial e defende uma educação centrada na pessoa, capaz de formar para o pensamento crítico, a liberdade e a responsabilidade.
“Estamos sempre a abrir o futuro, com bússolas e orientações, mas estamos a ajudar os mais novos a abrir o futuro”. É desta forma que D. António Augusto Azevedo sintetiza o desafio colocado atualmente à educação, no arranque da Semana Nacional da Educação Cristã, que decorre entre 2 e 11 de outubro.
Em declarações o presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé (CEECDF) considera que a educação não pode limitar-se à transmissão de conhecimentos. Deve, antes, ajudar cada pessoa a desenvolver as suas capacidades, a descobrir o seu lugar no mundo e a encontrar os instrumentos necessários para colocar essas capacidades ao serviço da sociedade.
“A pessoa é o sujeito fundamental e decisivo” do processo educativo, afirma o bispo de Vila Real, sublinhando que a centralidade da pessoa se aplica particularmente a “educandos, estudantes e catequizandos”, uma vez que é para o seu desenvolvimento integral que a educação deve estar orientada.
A reflexão surge na sequência da Nota Pastoral da Semana Nacional da Educação Cristã, publicada pela Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé com o título “Artífices de uma nova humanidade”.
Educação como construção de uma “nova humanidade”
Os bispos da Comissão Episcopal apresentam a Semana Nacional da Educação Cristã como uma oportunidade para refletir sobre a missão educativa da Igreja e, simultaneamente, agradecer a todos os que diariamente trabalham na formação humana, ética, espiritual e cristã das novas gerações.
A Nota Pastoral dirige-se aos responsáveis pela administração e gestão escolar, aos educadores cristãos, professores de Educação Moral e Religiosa Católica, escolas católicas, párocos e catequistas.
“Todos somos convocados para um pacto educativo que coloca a pessoa no centro da ação e da finalidade educativa, inclusiva e participada”, escrevem os bispos.
O documento considera que educar é “um bem comum e um ato de esperança” e desafia os educadores a conduzir crianças e adolescentes não apenas ao conhecimento, mas também à sabedoria e à profecia, tendo Cristo Ressuscitado como fonte de vida nova.
Aos alunos e catequizandos é deixado também um apelo para que não tenham medo de sonhar e de traçar “novos mapas”, procurando um crescimento integral inspirado pelo Evangelho.
Para D. António Augusto Azevedo, esta perspetiva significa compreender a educação como um processo que permite a cada pessoa “desenvolver o melhor de si própria”, a partir da sua individualidade, e contribuir para a construção da sociedade.
“Mais do que transmitir conhecimentos, a educação” deve ajudar “cada pessoa a descobrir o seu papel no mundo” e a adquirir os instrumentos necessários para concretizar as suas capacidades, defende.
Inteligência artificial: “Está em risco a humanidade”
Um dos grandes desafios colocados pela Nota Pastoral é o impacto das novas tecnologias, em particular da inteligência artificial.
O presidente CEECDF considera a IA “um tema decisivo”, perante um desafio que apresenta “uma dimensão nova pela capacidade e pelo risco que comporta para a própria humanidade”.
O bispo explica que, ao contrário de outros avanços tecnológicos, a inteligência artificial pode desenvolver processos que ultrapassem o conhecimento ou o controlo direto das pessoas.
“Enquanto outros avanços nunca puseram em causa o ser humano e estavam ao seu serviço, hoje a IA pode seguir caminhos autónomos que o humano desconhece. Está em risco a humanidade”, alerta D. António Augusto Azevedo.
A Nota Pastoral apresenta a mesma linha de preocupação, chamando a atenção para os desafios colocados pela tecnologia à verdade, ao discernimento e à liberdade.
Os bispos alertam para o risco de serem comprometidas dimensões consideradas fundamentais da pessoa, como “a interioridade, a reflexão, o pensamento crítico, as decisões conscientes, a criatividade, os valores, a procura de sentido existencial e de realização pessoal”.
O documento recorda, neste contexto, a reflexão do Papa Leão XIV sobre a necessidade de orientar a inteligência artificial com sabedoria e de formar pessoas capazes de colocar a tecnologia ao serviço da caridade, da compaixão e da responsabilidade.
“Não se pretende a eliminação da IA”
Apesar dos riscos identificados, D. António Augusto Azevedo rejeita uma abordagem de simples recusa da tecnologia.
“Não se pretende a eliminação da IA, mas um sábio uso ao serviço do ser humano, da sua utilização para o bem da sociedade, para que seja um auxiliar poderoso do próprio homem”, afirma.
O problema pode surgir, acrescenta, quando a utilização inadequada da inteligência artificial conduz a pessoa a deixar de desenvolver as suas próprias capacidades.
“A IA pode, no seu mau uso, levar o ser humano a não usar as suas capacidades“, alerta.
É neste ponto que atribui uma responsabilidade particular aos educadores cristãos, chamados a ajudar crianças, adolescentes e jovens a desenvolver o pensamento crítico, a imaginação e o respeito pela dignidade humana.
“Os educadores cristãos são aqueles que podem trazer esta ideia de que cada um é um ser único, criado para o bem e que necessita de orientação de modo a atingir todo o seu potencial”, afirma.
A resposta aos desafios da inteligência artificial deverá ainda envolver diferentes setores da sociedade. Para o presidente da CEECDF, são necessárias “estratégias de grande diálogo e colaboração entre os vários protagonistas sociais” para que as decisões tomadas contribuam para o bem da humanidade.
Uma época marcada pelo individualismo e pela fragmentação
A reflexão sobre a tecnologia surge, na Nota Pastoral, integrada numa preocupação mais ampla com o contexto cultural e social em que vivem atualmente crianças e jovens.
Os bispos identificam uma época marcada pela fragmentação cultural, pelo individualismo e pela crise das relações humanas, com manifestações como o isolamento social, a solidão e a fragilidade dos vínculos familiares e comunitários.
Perante esta realidade, defendem a necessidade de criar “trajetórias de navegação segura”, capazes de proporcionar à pessoa referências sólidas.
É neste contexto que a educação cristã é apresentada como um processo que procura integrar as várias dimensões da pessoa: inteligência, afetividade, consciência, espiritualidade e responsabilidade pelo próximo.
A Nota Pastoral considera que esta educação pode contribuir para renovar a família, a escola, a comunidade cristã e a sociedade, promovendo uma cultura de reconciliação, perdão, paz, justiça, diálogo e cooperação.
D. António Augusto Azevedo coloca esta missão em termos semelhantes, defendendo que a educação deve ajudar a contrariar “o isolamento, o egoísmo e uma cultura marcada pelo imediatismo”.
“Talvez seja essa a preocupação permanente de toda a educação: a descoberta de valores e de sentido e, ao mesmo tempo, a promoção de uma cultura e pedagogia da paz, da reconciliação, da proximidade e do respeito mútuo”, afirma.
Escola, família e comunidade chamadas a trabalhar em conjunto
Para o bispo de Vila Real, esta responsabilidade não pode ser atribuída exclusivamente à escola ou aos professores.
“A escola, a família e a comunidade cristã devem estar atentas para que todas as pessoas envolvidas tenham esta preocupação de transmitir valores, para que não se percam”, sublinha.
Na perspetiva cristã, acrescenta, a Bíblia constitui “a primeira bússola para ir à procura dos valores do Reino”, refere o presidente da CEECDF.
Também a Nota Pastoral insiste na necessidade de um trabalho conjunto entre os diferentes intervenientes no processo educativo. A educação é descrita como um itinerário de pessoas com pessoas, que promove o encontro com a verdade, a proximidade, a formação da consciência e a capacidade de escutar e discernir os sinais dos tempos.
A Semana Nacional da Educação Cristã decorre de 2 a 11 de outubro, sob o tema “Artífices de uma nova Humanidade”. A iniciativa inclui o simpósio “A Educação e a Escola: Traçar Mapas Educativos para uma Magnífica Humanização”, marcado para 2 e 3 de outubro, em Fátima, com cerca de 420 participantes ligados ao ensino público e privado.
