Os preços do gás continuaram a disparar na Europa esta terça-feira, depois dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão agitarem os mercados energéticos globais e reacenderem receios de um choque prolongado. Analistas alertam que custos grossistas podem chegar às faturas e travar a economia.
Os preços do gás na Europa dispararam mais de 22% devido aos ataques dos EUA e de Israel contra o Irão, que estão a comprometer as exportações de gás natural liquefeito (GNL) do Golfo, sobretudo as do Qatar.
O contrato de futuros holandês TTF, considerado a referência europeia, subiu mais de 20%, depois de ter subido 22% para 38,885 euros, um preço ainda inferior ao atingido em janeiro devido a uma vaga de frio.
Europa: perspetivas
Para a Europa, a grande questão é saber como é que um novo choque energético poderá afetar uma recuperação já frágil e um sistema de abastecimento que continua mais exposto a ruturas do que antes de 2022.
O continente foi saindo gradualmente da crise desencadeada pela invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, reduzindo drasticamente a dependência do gás russo por gasoduto e substituindo-o por GNL transportado por via marítima.
Esta mudança ajudou a estabilizar o aprovisionamento, mas também tornou a Europa mais dependente das rotas marítimas globais, dos carregamentos spot e dos terminais de importação, elementos que podem ficar rapidamente sob pressão quando as tensões geopolíticas aumentam.
O Catar é uma peça-chave desse mix, fornecendo cerca de 12 a 14% das importações de GNL da Europa, o que leva os operadores a acompanhar de perto o Golfo e os seus pontos de estrangulamento à procura de qualquer sinal de que os fluxos possam ser reduzidos.
Qualquer bloqueio do estreito de Ormuz poderia provocar de imediato disparos de preços nos mercados globais de petróleo e de GNL, atingindo a Europa apesar das importações diretas relativamente limitadas da região, já que o bloco compete com compradores asiáticos por carregamentos flexíveis no mercado spot.
O think tank alertou que a subida dos preços poderá ocorrer numa altura em que a Europa iniciou 2026 com níveis de armazenamento de gás inferiores aos dos últimos anos.
Atualmente, as reservas de gás da UE estão cerca de 30% cheias, abaixo do nível do ano passado. Na Alemanha, os armazenamentos rondavam os 21,6% no final de fevereiro, enquanto em França se situam também na casa dos 20%.
Alshammari afirmou que não se pode excluir uma subida significativa dos preços ao consumidor final, dependendo da “duração e gravidade de quaisquer restrições de abastecimento”.
No entanto, muitos agregados familiares e pequenas empresas têm tarifas fixas ou reguladas que são ajustadas com atraso, o que significa que qualquer choque de preços tenderá a fazer-se sentir ao longo dos próximos meses, e não de imediato.
Alertou ainda que um preço sustentado acima dos 50–60 euros/MWh poderá traduzir-se em aumentos significativos.
Quem está mais exposto
Um período prolongado de preços elevados penalizaria fortemente as indústrias intensivas em energia, como os setores químico, de fertilizantes, siderúrgico, do vidro e da produção de papel.
Países como a Alemanha, Itália e Países Baixos poderão ver a sua competitividade degradar-se ainda mais, o que pode levar a cortes de produção ou ao encerramento de fábricas, indicou Alshammari.
Os agregados de baixos rendimentos, sobretudo na Europa Central e de Leste, incluindo Polónia, Chéquia e Hungria, bem como nos países do sul, como Itália, Espanha e Portugal poderão também estar vulneráveis devido a uma maior dependência do gás para aquecimento e cozinhar e a um parque habitacional menos eficiente do ponto de vista energético.
Em Portugal
- Portugal tem reservas energéticas para 93 dias de consumo, num cenário de disrupção, indicou a ENSE.
O governo poderá ter novamente de ponderar medidas de apoio direcionadas para proteger os consumidores mais vulneráveis.
