Não estás na praia, não estás num festival, não estás a beber uma coisa ridícula que custa uma prestação do Crédito à Habitação, não estás no mar, não estás numa viagem com fotografias lindíssimas e legendas sacadas da net.
Estás como eu, em casa, estendido, a praguejar contra o calor, a olhar para o telemóvel com a sensação de que toda a gente está a viver melhor do que tu.
Não está.
Transformámos a felicidade numa exposição: não basta estar bem, é preciso parecer estar bem; não basta descansar, é preciso que o descanso tenha boa luz. Temos de produzir prova de vida.
Isto cansa, porra.
Escrevo-te para te dar os parabéns. Não estás a fazer nada de fixe neste momento.
Parabéns por estares quieto, por não estares a fingir entusiasmo.
Comparar pode magoar: comparamos o nosso cansaço com a montra dos outros, a nossa casa quente com o mar dos outros, a nossa barriga mole com o corpo filtrado dos outros.
É uma guerra injusta, e sobretudo estúpida.
Agradece os teus privilégios, claro; agradece mais ainda a tua liberdade: estás a borrifar-te para aquilo que os outros acham que tem de ser fixe.
Eu acho que o mais fixe disto tudo é poder dizer: hoje não; hoje fico. Hoje sou apenas isto. Não conheço liberdade maior do que essa.
Aproveita-a bem.
Pedro Chagas Freitas
