O verão em Sonim despede-se sempre da mesma maneira. Depois da festa do Senhor do Bonfim no último fim-de-semana de Julho, da festa da N. Sra. da Saúde em Valpaços na primeira semana de Setembro, (o culminar de meses de arraiais, aldeia após aldeia), chega a celebração das vindimas e da nossa cultura na Rota das Adegas no próximo fim-de-semana (19 e 20). Uma festa que celebra também a união da freguesia: um ano em Barreiros, no seguinte em Sonim.
Sabemos celebrar. Fazemo-lo bem. Há muito que o fazemos.
Ainda antes desta última festa, a vida muda sem hesitar. Nesta semana, as escolas do concelho voltaram a abrir as portas. Mochilas novas, sapatilhas que ainda não se adaptaram a pés que crescem sem parar, o autocarro escolar a parar de novo onde sempre parou. Das festas para as salas de aula é também o que sabemos fazer bem: manter o essencial a funcionar, ano após ano, com o mesmo esforço de sempre, um ciclo que se repete fluidamente.
Ainda em Setembro, no dia 23, Valpaços, que recebeu a distinção “Cidade Biológica Europeia 2025” atribuída em Bruxelas pela Comissão Europeia, acolhe o II Fórum da Bio-Região do Alto-Tâmega e Barroso onde vão reunir produtores, especialistas, empresas e responsáveis políticos para discutir o futuro da agricultura biológica na região.
O concelho que é reconhecido pela Europa, e lidera o país em produtores biológicos certificados, com azeites, vinhos, amêndoas e castanhas premiados lá fora, quer estimular a renovação geracional no campo, a esperança de fixar mais jovens a trabalhar a terra em modo de produção biológico.
Sabemos realizar, também. Quando queremos, sabemo-lo bem, e este prémio e estas nomeações provam-no à escala europeia.
Há uma pergunta que fica em aberto: fixar os jovens onde? Numa casa. E aqui a história muda de tom.
Portugal contou, nos Censos de 2021, mais de 723 mil alojamentos vagos. Perto de 375 mil não estão para venda nem para arrendar; estão simplesmente fechados, por um motivo que qualquer aldeia transmontana reconhece de imediato: uma herança por resolver, um herdeiro que nem vende nem deixa vender, um acordo entre irmãos adiado geração após geração. Não é um problema de Sonim. É o país inteiro, visto a partir de Sonim.
Basta caminhar pelas nossas ruas para ver o que o número esconde e a paisagem mostra sem pudor: janelas fechadas, portões presos com arames, terrenos que já ninguém trata e que ninguém vende. Há quem os queira comprar, mas também há quem não consiga decidir vendê-los.
Esta realidade tem consequências bem visíveis: desde incêndios cada vez mais difíceis de controlar em terrenos sem cuidados, a aldeias com casas devolutas a cair a pouco e pouco. E, a cada inverno, menos pessoas a juntarem-se na fogueira de Natal. Numa aldeia como Sonim, onde dois terços dos residentes têm mais de 65 anos, onde vivem menos de 20 pessoas com menos de 40 anos, esta pirâmide demográfica mostra claramente para onde estamos a caminhar.
Não é a saudade do que a aldeia já foi que me leva a escrever isto: não quero uma aldeia igual à de há cinquenta anos. Tal seria impossível de qualquer das maneiras.
É o que a aldeia ainda pode ser, se assim o decidirmos, que me leva a escrevê-lo.
Planear? Isso já não sabemos tão bem. Não por falta de vontade, de mérito, esforço ou competência, mas a meu ver, por falta do gesto simples de sentar à mesa e decidir.
Quem, exactamente, teria de se sentar a essa mesa? Um herdeiro específico, um funcionário da Câmara, um empresário à procura de trabalhadores, um empreendedor a avaliar a possibilidade de se radicar?
A burocracia de uma herança é lenta; a paciência de quem espera uma casa para vir viver para cá não costuma sê-lo tanto.
E assim chegamos à pergunta que fica por responder, aquela que nenhuma festa substitui: o que sonhamos, exactamente, para este lugar?
Não pergunto por retórica. A escola reabriu porque ainda há crianças suficientes para justificar as portas abertas. Por enquanto. No dia 23, o Fórum da Bio-Região vai discutir o futuro da agricultura biológica na região. Seria a oportunidade perfeita para perguntar, também, onde vai morar quem quer vir para cá praticá-la?
A festa da Nossa Senhora da Saúde trouxe filhos das aldeias de volta por uma semana, com abraços e fotografias no adro da igreja. Acabadas as festas e feitas as sempre difíceis despedidas de familiares e amigos, cada um regressou para onde mora, um pouco por todo o mundo.
Contudo, quem quer vir viver para cá encontra muitas casas fechadas e terrenos abandonados, e ainda assim dificuldades em encontrar o seu próprio espaço. Se não tiver relações familiares na região ainda mais difícil se torna.
Celebramos bem. Realizamos, quando queremos, também bem. Planear é o degrau que parecemos continuar a evitar.
E sonhar, o degrau anterior a esse, o que decide para onde planeamos, ficou por fazer há tanto tempo que quase esquecemos que era preciso fazê-lo primeiro.
Talvez seja esta a ordem errada em que vivemos, sem dar por isso: celebramos o que já temos, realizamos o que já sabemos fazer, e só depois, se sobrar tempo, perguntamos o que deveríamos ter sonhado antes de começar.
O autocarro já voltou a levar e trazer as crianças da escola. A Rota das Adegas está prestes a fechar o ciclo do verão. Isto não garante nada: é só um ciclo a repetir-se, por enquanto.
O que decidirmos fazer com as casas fechadas, os terrenos parados e os jovens que dizemos querer atrair e fixar é que vai dizer se o ciclo continua a trazer gente, ou se está apenas a girar sobre um vazio cada vez maior, entre uma festa e a seguinte.
Filipe Monteiro
Sonim
