O chamado “Programa Volta” está a ser apresentado como uma grande vitória ambiental. Mas quando se olha para quem manda realmente no sistema, percebe-se rapidamente que isto tem muito mais de engenharia financeira do que de ecologia.

A entidade que gere o sistema chama-se SDR Portugal. E atenção a este detalhe: não é um organismo público. É uma associação privada.

O presidente da organização é Leonardo Mathias, antigo Secretário de Estado da Economia. Mas o verdadeiro poder está em quem fundou e financia o sistema: a Circular Drinks e a SDRetalhistas.

E quem está por trás dessas estruturas?

Precisamente os gigantes das bebidas e os maiores grupos de distribuição do país. Estamos a falar de empresas ligadas à Coca-Cola, Super Bock, Central de Cervejas, Sumol, Compal e aos grupos donos do Continente, Pingo Doce, Lidl, Auchan, Mercadona, Aldi e Intermarché.

Ou seja: as mesmas multinacionais que inundam o mercado com plástico descartável passaram agora a controlar o sistema que cobra mais 10 cêntimos ao consumidor em nome da “sustentabilidade”.

A União Europeia obrigou os países a aumentar drasticamente a recolha de garrafas plásticas até 2029 através do princípio do “poluidor-pagador”. Em teoria, quem coloca plástico no mercado devia assumir os custos ambientais da recolha e tratamento.

Mas em Portugal aconteceu algo muito curioso: em vez de criar um sistema público e independente que obrigasse os produtores a suportar diretamente os custos da poluição que geram, foi permitido aos próprios poluidores criarem e gerirem um sistema privado onde o consumidor paga adiantado e faz o trabalho logístico.

  • Compramos a bebida
  • Pagamos depósito
  • Guardamos lixo em casa
  • Transportamos embalagens
  • Esperamos por máquinas
  • E ainda corremos o risco de perder o dinheiro.

Porque aqui entra a parte mais interessante do negócio: Se a garrafa ficar amassada, se o código de barras não for aceite, se a máquina estiver avariada, ou simplesmente se a pessoa não tiver tempo para ir devolver embalagens, os 10 cêntimos ficam retidos no próprio sistema.

  • Não vão para o Estado.
  • Não vão diretamente para um fundo ambiental público.

Ficam dentro da estrutura privada criada e controlada pelas próprias marcas e grandes superfícies.

Chamam-lhe financiamento do sistema. Na prática, milhões de euros poderão ficar presos todos os anos graças ao esquecimento, desgaste ou impossibilidade das pessoas devolverem embalagens.

E tudo isto enquanto falamos de multinacionais com lucros anuais absolutamente astronómicos. Mesmo assim, conseguiram criar um modelo onde parte do esforço financeiro e logístico passa diretamente para as famílias.

E há outra pergunta que quase ninguém faz:

Se o objetivo fosse realmente ecológico, porque é que o foco continua quase exclusivamente na reciclagem de plástico e latas em vez de apostar fortemente na reutilização de vidro?

Todos nós conhecemos o sistema antigo das cervejas e águas reutilizáveis nos cafés: recolher, lavar, esterilizar e voltar a usar. Décadas a funcionar. Mas reutilizar obriga as multinacionais a alterar linhas de produção, logística e margens de lucro.

Reciclar plástico mantém o ciclo do descartável vivo.

A reciclagem mecânica continua a gastar enormes quantidades de água e energia enquanto se produz mais plástico novo. No fundo, venderam-nos isto como uma revolução ecológica.

Mas o que muita gente vê é outra coisa: os maiores produtores de plástico passaram a controlar o sistema que lucra com a gestão do próprio problema que criaram.

Agora pensem…

Paulo Araújo