Uma pessoa que grava e partilha sabe o que faz. Sabe que pode humilhar. Sabe que pode destruir, e mesmo assim faz… E quando pensa duas vezes, o vídeo já circulou. O dano já se tornou permanente. A justiça chega tarde e chega fria. E a vítima fica sozinha a tentar continuar uma vida que nunca mais será a mesma.

A violência contra as mulheres já não se esconde. A violência contra cidadãos não se esconde. A arrogância não se esconde. As ameaças não se escondem. Estão todas online. Ri-se em público. E tem fãs. O que devia chocar, diverte. O que devia ser crime, viraliza. O que devia ser punição, é conteúdo.

A violência / ameaças crescem em silêncio, mas à vista de todos. Não se ouve nos tribunais, não deixa nódoas negras, não chega à esquadra ou posto da autoridade. Vive dentro de um ecrã. Respira em comentários. Propaga-se em partilhas e vídeos que se tornam virais.

É o ódio digital. E o mais assustador é que já não se esconde. Ri-se, tem público, e faz likes.

Os agressores já não usam força física. Usam palavras, câmaras e redes sociais. Usam o telemóvel como arma e a internet como plateia.

São uns garotos. Uns covardes. Andam na rua a olhar para o chão, e com um sorriso malicioso. Crescem a ouvir que ser homem é dominar a mulher e provocar os outros.

A estas pessoas chama-se incels, um nome que parece inofensivo mas que carrega raiva. São pessoas que se dizem corretos, celibatários involuntários e que culpam as mulheres e os outros por tudo. Transformam a frustração em ideologia e a rejeição em discurso de ódio. Entre memes, vídeos e piadas, normalizam a ideia de que as mulheres e os outros de ideias diferentes merecem castigo.

Há adolescentes, jovens e adultos, que acham que filmar, partilhar, expor e criticar é apenas uma brincadeira. Não é. É crime. O artigo 199º do Código Penal é claro. Divulgar imagens íntimas sem consentimento é punido com prisão até cinco anos. Mas quando o autor é jovem ou está ligado a uma entidade publica/autoridade, o sistema hesita. A lei tutelar educativa fala em reeducação, em reintegração, em proteção. Mas quem protege as vítimas? Quem apaga os vídeos?

A imaturidade, a ignorância pode explicar, mas não absolve.

ᴾᵃᵘˡᵒ ᴬʳᵃᵘ́ʲᵒ