Em breve ver uma viatura do INEM a prestar socorro direto poderá ser uma raridade, um vestígio de um país que já existiu. Dezembro de 2025 trouxe a confirmação do que muitos temiam: o INEM deixará de ter ambulâncias. O Estado demite-se da linha da frente do socorro para assumir um papel de mero gestor de chamadas, entregando a nossa sobrevivência a bombeiros sobrecarregados e, pior, a empresas privadas.

Para quem acha que isto é apenas “reorganização logística”, é preciso explicar o desenho técnico desta catástrofe. Atualmente, quando ligamos 112 em pânico, o CODU aciona diretamente uma Viatura Médica (VMER) ou uma Ambulância de Suporte Imediato de Vida (SIV) do INEM, garantindo que o socorro diferenciado chega com o transporte, no entanto, o cenário de pesadelo que se avizinha dita que o INEM sai da estrada. O socorro inicial passará a ser feito exclusivamente por bombeiros (que já asseguram 90%, mas agora sem a rede de segurança do INEM) e privados, numa nova ordem onde primeiro vai a ambulância “básica” para avaliar, e só depois, se acharem necessário, chamam uma equipa médica do INEM, que virá num carro ligeiro, sediada num centro de saúde e não numa base de emergência.

Este novo sistema introduz um atraso mortal, pois todos sabemos que em casos de AVC, enfarte ou trauma grave cada segundo conta, e criar um sistema de “duas etapas” introduz um atraso burocrático no meio da agonia. Além disso, a formação técnica passará a ser dada por privados, mercantilizando o saber salvar vidas, e a entrega do socorro a empresas introduz a lógica do lucro na emergência médica.

Uma empresa privada gere-se por folhas de Excel e lucro a qualquer custo, restando saber se irão a zonas rurais isoladas onde a operação dá prejuízo, ou se o socorro de qualidade ficará reservado aos grandes centros urbanos.

Com tão pouco tempo de governação, era expectável estabilidade, seriedade e vontade de melhorar o país. Em vez disso, temos serviços essenciais a colapsar à nossa frente. Esta degradação acelerada é impossível de ignorar. Se isto é apenas o início, nem consigo imaginar o desfecho.

ᴮᵒᵐᵇᵉⁱʳᵒˢ ᴾᵒʳᵗᵘᵍᵃˡ