Sem ele, não sei se seria a pessoa que sou. Mais ainda: não sei se teria as pessoas da minha vida ainda na minha vida.
Quem diz que o SNS não faz sentido nunca dormiu numa cadeira de hospital às três da manhã, com o corpo torcido, à espera de uma notícia que não seja definitiva. Eu vivi em hospitais. Vi o meu pai morrer ali. Depois vivi lá com o meu filho. Vi uma equipa que não aparece em conferências de imprensa, que não escreve livros de liderança, que não faz posts inspiracionais. Vi pessoas que salvam crianças enquanto o país discute se compensa manter um serviço público. Com o pico dos vírus, já há, e suspeito que vai continuar a haver, uma infestação de notícias críticas. Suspeito que vai haver especialistas de estúdio, comentadores que nunca tiveram de escolher entre pagar uma consulta privada ou comprar comida. Dirão que o SNS é insustentável, ultrapassado, ideológico, que já não faz sentido. Não vão nessas cantigas. São cantigas de embalar para adultos cansados de pensar.
O SNS faz sentido, é das poucas coisas nesta porra toda que fazem sentido. Um país que abdica do seu sistema público de saúde abdica da ideia de comunidade. Passa a ser apenas um conjunto de indivíduos a competir por sobrevivência, como animais na selva.
Eu amo o SNS. Gostava tanto que todos amássemos o SNS.
Lutem pelo SNS. Amem o SNS. Tratem bem quem vos atende nas urgências, tenham empatia, entendam o desgaste, o stress, a vida deles, a pressão deles, por estes dias. Não os vejam como problemas, não os vejam como inimigos. Não são. Olhem para eles, sintam com eles. Não vão com raiva. Somos todos pessoas a cuidar de pessoas. Façam barulho também para dizer bem, não só para dizer mal. Defendam-nos como defenderiam um pai, um filho, um corpo querido estendido numa cama branca. Um dia pode mesmo ser mesmo isso o que eles podem fazer por vocês.
ᴾᵉᵈʳᵒ ᶜʰᵃᵍᵃˢ ᶠʳᵉᶦᵗᵃˢ
