Apesar de a violência afetar ambos os sexos, é experienciada com maior gravidade e repetição entre as mulheres, segundo uma análise divulgada esta quinta-feira.

Quase metade da população portuguesa já foi vítima de algum tipo de violência ao longo da vida, mas são particularmente as mulheres as principais vítimas de violência sexual, na intimidade ou de assédio.

As conclusões constam numa nota complementar, intitulada “Violência em Portugal: Um Retrato da Desigualdade”, que integra o relatório anual “Portugal, Balanço Social 2025”, elaborado pela universidade Nova SBE, e a que o Valpaços Online teve acesso.

O documento analisa a prevalência da violência em Portugal, com base em dados do Inquérito sobre Segurança no Espaço Público e Privado (ISEPP, INE 2022) e dos inquéritos europeus sobre violência (EU-GBV, Eurostat 2022).

De acordo com o relatório, 46,8% das mulheres portuguesas e 42,6% dos homens já foram vítimas de algum tipo de violência ao longo da vida.

“A violência física e/ou sexual é experienciada por ambos os sexos, mas com maior gravidade e repetição entre as mulheres; 19,7% das mulheres foram vítimas, e em mais de metade dos casos os episódios repetiram-se ou repetem-se ao longo do tempo“, revela a análise.

Apesar da magnitude do fenómeno, a denúncia da violência permanece limitada, já que “apenas 65,3% das vítimas comunicaram o sucedido” e “mais de 60% recorreram apenas a familiares ou amigos”, descendo para cerca de 20% os que apresentaram queixa às autoridades.

A maioria das mulheres reconhece a existência de linhas telefónicas de ajuda de associações não governamentais (84,8%), casas de abrigo (88,9%) e apoio jurídico gratuito (63,9%). Para os homens, as percentagens são similares, mas ligeiramente mais baixas. Ainda assim, a prevalência de conhecimento destes diversos apoios contrasta com os baixos níveis de reporte observados em Portugal.

Portugal no contexto europeu

A análise permitiu constatar que “Portugal apresenta níveis de prevalência de violência mais baixos do que a média da União Europeia”. “Em Portugal, cerca de 22,5% das mulheres foram vítimas de violência em contexto de intimidade (31,8% na UE27)”, sinaliza o relatório.

Contudo, em Portugal, a taxa de denúncia é inferior à da UE27 (65,3% comparativamente a 68,2%). Segundo os autores, os dados sugerem que “o estigma social e a desconfiança institucional continuam a ser obstáculos à denúncia e à proteção eficaz das vítimas”.

A análise conclui ainda que “os progressos alcançados na igualdade formal entre homens e mulheres não eliminam as desigualdades substanciais que persistem no quotidiano”, identificando a violência de género como “simultaneamente uma causa e uma consequência dessas desigualdades”, que “exige uma resposta pública articulada, que combine educação, prevenção, apoio social e justiça”.