Já foste “alimentar” a máquina hoje ou ainda estás a guardar o tesouro de plástico na despensa?
Ah, o famoso depósito de 10 cêntimos! Pois é, Zé, agora a “virtude” já tem preço tabelado na máquina de venda reversa.

É a ironia suprema desta nova era:

  • O Ciclo do Tostão: Primeiro, pague o imposto sobre a embalagem. Depois, pague o produto. E, no fim, tens de caminhar com o saco a tiracolo até à máquina de 25.000€ para “recuperar” os teus 10 cêntimos — que, na verdade, já eram teus.
  • A Ilusão do Lucro: Faz você sentir um investidor de sucesso ao receber uma moedinha de volta, enquanto o sistema que gera esses cêntimos fatura milhões em taxas de gestão, software e logística.
  • A “Esmola” Verde: É a indulgência moderna. Tu dás uma garrafa à máquina como quem dá um galo a Asclépio, esperando que isso limpe a consciência do mundo, enquanto os iates lá no largo acendem a queima de combustível que pagaria um milhão dessas garrafas.

O sistema é engenhoso: transforma o cidadão num trabalhador não remunerado da indústria da reciclagem. Tu coletas, tu transportes, tu limpas, tu depositas… e a recompensa é um talão que mal dá para um café (se o café não tiver subido de preço entretanto devido à “taxa de inflação climática”).

Dantes, o Zé levava o garrafão ao fontanário. Agora, o Zé leva uma garrafa à máquina para não ficar mais pobre do que já é. É o progresso, dizem eles, enquanto a moeda de 10 cêntimos brilha na palma da tua mão como o último vestígio de uma dignidade que está a ser compactada, garrafa a garrafa.

Paulo Araújo