Uma coisa é certa e que ninguém admite: nós não dizemos metade daquilo que pensamos. A civilização é, basicamente, um enorme curso intensivo de “aprende a estar calado”.

Porque uma pessoa olha para alguém e pensa uma coisa, mas abre a boca e sai outra completamente diferente. “Esse vestido fica-te muito bem.” Tradução possível: “Se eu dissesse o que realmente me passou pela cabeça, provavelmente chamavas a polícia.”

“Tens um corpo incrível.” Tradução: “O meu cérebro acabou de desligar o departamento da racionalidade.” “Que olhos bonitos.” Tradução: “Estou a fazer um esforço monumental para me comportar como um adulto normal.” “Que lábios lindos…” Tradução: “E a minha imaginação, entretanto, já foi fazer uma viagem que não consta no Google Maps e desceu abaixo do umbigo!” E isto não é só dos homens. As mulheres também têm cérebro. Também olham. Também desejam. Também imaginam.

É como veres um mulher com a bunda virada para o sol na praia: Muito bem!! A trabalhar para o bronze!!! ! Mas que bem o cacete! Isto era já em modo de doggystyle é que era. Mas não! Dizemos: “Muito bem! Fica bem esse bronze!” Porque lembras sempre que não podes perder a compostura, passares por ordinário (se bem que há quem goste…) e lembras sempre do chinelo da mãe.

Mas fomos educados. A mãe dizia: “Olha, mas não olhes dessa maneira.” O pai dizia: “Tem respeito!!” A professora dizia: “Comportem-se!” E nós aprendemos. Ficamos animais amestrados. Aprendemos a esconder o animal dentro do blazer. A coisa maravilhosa é que o animal continua lá. Só aprendeu a dizer: “Bom dia.” Em vez de: “Minha nossa senhora…nem sabes o que te fazia!”

Somos uma espécie extraordinária. Passamos anos a aprender etiqueta, educação, diplomacia e autocontrolo… para depois ficarmos sozinhos, olharmos para o telemóvel e pensarmos: “Ainda bem que ninguém consegue ler pensamentos.” Porque se conseguisse… acabava-se a paz mundial. O casamento, a política e sobretudo aqueles comentários do Facebook: “Linda fotografia! ” Linda fotografia? Meu amigo, tu escreveste “linda fotografia” porque a tua mãe te educou.

No fundo, somos todos animais amestrados. Não porque não tenhamos desejos, mas porque descobrimos que há uma diferença enorme entre pensar, desejar e dizer. E essa diferença chama-se educação, bom senso e sobrevivência social.

Portanto, quando alguém vos disser: “Ficas muito bem assim”, acreditem. Mas também saibam ler as entrelinhas.

E depois chegamos a casa, fechamos a porta, largamos o telemóvel e pensamos: “Porra… ainda bem que ninguém lê pensamentos.” Porque se lesse… estávamos todos tramados…

BrunoFernandes