O feriado municipal de ontem, 6 de novembro, teve um significado particularmente especial. Na celebração dos 190 anos da elevação de Valpaços a concelho, viveu-se um momento de grande simbolismo e reconhecimento: a homenagem a todos os autarcas que, ao longo dos anos da democracia, dedicaram o seu tempo, o seu trabalho e uma parte significativa das suas vidas ao serviço das nossas populações.

Foi uma homenagem justa, merecida e que importa valorizar.

Ser autarca é assumir uma responsabilidade que vai muito além do exercício de um cargo político. É colocar-se ao serviço dos outros, ouvir as pessoas, conhecer as suas dificuldades, procurar respostas para os seus problemas e trabalhar diariamente pelo desenvolvimento da sua terra. É assumir decisões, enfrentar desafios, lidar com dificuldades e, muitas vezes, sacrificar tempo pessoal e familiar em nome do interesse coletivo.

É um percurso que nem sempre é fácil, que nem sempre é reconhecido e que nem sempre reúne consensos. Mas é precisamente por isso que a homenagem de ontem teve tanto significado.

Uma palavra muito especial de reconhecimento aos presidentes de Câmara que, ao longo deste percurso democrático, assumiram a responsabilidade de conduzir os destinos do nosso concelho: José Fernandes, Manuel Chaves Sobrinho de Morais, Mário Dias Parente, Francisco Baptista Tavares, Amílcar Castro de Almeida, António Joaquim de Medeiros e Jorge Mata Pires.

Cada um deixou a sua marca, enfrentou os desafios do seu tempo e contribuiu, com as suas decisões, convicções e trabalho, para a construção do Valpaços que hoje conhecemos.

Mas esta homenagem não se esgota nos presidentes de Câmara. É também devida a todos os vereadores, presidentes de Junta de Freguesia, membros das Assembleias Municipais e de Freguesia e a todos os homens e mulheres que aceitaram responsabilidades autárquicas e que, nas diferentes funções que desempenharam, contribuíram para servir as nossas comunidades.

A todos, sem exceção, independentemente das suas cores políticas, das suas opções ou das diferenças que naturalmente existiram, é devido respeito e gratidão.

A história de Valpaços também se escreve através do trabalho, da dedicação e da entrega de todos estes autarcas. Não seria justo recordar o caminho percorrido sem reconhecer quem o ajudou a construir.

Mas esta homenagem não deve ser apenas uma evocação do passado. Deve ser, sobretudo, um momento de reflexão sobre o presente e o futuro.

Vivemos tempos preocupantes para a democracia. Assistimos, em Portugal e no mundo, ao crescimento de discursos extremistas, à normalização da intolerância, ao ataque às instituições, à desvalorização da liberdade e ao questionamento de princípios e valores que julgávamos inquestionáveis.

E Valpaços não é exceção. Também no nosso concelho a democracia pode estar em perigo. Também aqui devemos estar atentos aos sinais de intolerância, à falta de respeito pela diferença, à desvalorização das instituições e a todas as atitudes que possam fragilizar os valores democráticos. Não podemos olhar para estas ameaças como algo distante ou que só acontece aos outros. A democracia defende-se todos os dias, também à escala local, nas nossas instituições, nas nossas comunidades e na forma como nos relacionamos com quem pensa de maneira diferente.

A democracia não está garantida para sempre. Não é uma conquista irreversível, nem um património que possamos dar como adquirido. Exige vigilância, participação, responsabilidade e coragem para a defender.

É importante perceber que a democracia não significa apenas votar. Significa respeitar quem pensa diferente, aceitar a pluralidade de opiniões, garantir a liberdade de expressão, preservar a independência das instituições e reconhecer que ninguém está acima das regras e dos valores que sustentam o Estado de Direito.

Podemos discordar dos partidos, dos governantes e das suas decisões. Podemos e devemos criticar, exigir mais e melhor. Isso é saudável e faz parte da democracia. Mas não podemos confundir liberdade com intolerância, autoridade com autoritarismo, nem contestação com destruição das instituições democráticas.

A democracia deve estar sempre acima dos partidos, dos interesses pessoais, das ambições individuais e das circunstâncias políticas.

Quem a procura enfraquecer, quem alimenta o ódio, quem promove a divisão e quem pretende substituir o respeito pelas regras democráticas pela imposição da sua vontade deve encontrar uma sociedade atenta, firme e determinada na defesa dos seus valores.

A homenagem de ontem recordou-nos que o poder local democrático é feito de pessoas, de participação, de serviço público e de proximidade. É feito de homens e mulheres que, com maior ou menor visibilidade, contribuíram para transformar o nosso concelho e melhorar a vida das nossas populações.

Por isso, homenagear os autarcas é também homenagear a própria democracia. É reconhecer a liberdade que nos permite escolher, a pluralidade que nos permite discordar e o respeito que nos permite construir em conjunto.

Aos que nos antecederam, a nossa gratidão e o nosso respeito. Aos que hoje exercem responsabilidades, a responsabilidade de honrar esse legado. E às gerações futuras, o dever de preservar e fortalecer a democracia.

Valpaços tem 190 anos de história. Uma história construída por muitas gerações e por muitas pessoas que deram o seu contributo à nossa terra.

Que saibamos honrar esse passado, valorizar quem nos trouxe até aqui e, acima de tudo, defender aquilo que torna tudo isto possível: a liberdade, a democracia e o respeito pela dignidade de todos.

Porque nenhuma ambição pessoal, nenhum interesse partidário e nenhum projeto político pode valer mais do que a democracia!