Muitos lembram-se da célebre crítica em Astérix e Obélix: “Estes romanos são loucos”. Os gauleses de Goscinny e Uderzo observavam os legionários romanos a fazer coisas contrárias ao bom senso. Não porque fossem estúpidos, mas porque tinham de obedecer às ordens vindas de Roma. Não lhes era pedido que refletissem, mas que obedecessem.

E hoje, o que é feito de nós?

Ninguém nos grita ordens. Ninguém marcha a passo. Mas a direção está fixada, não por gritos de comando, mas pela pressão. Aquele que não segue é considerado um ser problemático. Aquele que faz perguntas desagradavelmente faz-se notar. Então, por segurança, preferimos seguir.

⦁ Terrivelmente actual

Há mais de 2400 anos, o filósofo grego Sócrates já descrevia dez sinais de alerta que anunciavam o declínio de uma sociedade. Formulado de forma simples, mas com força. E isto é terrivelmente actual. No entanto, não é um fenómeno novo sob o sol.

Em primeiro lugar: quando os mais ruidosos decidem. Não é aquele que tem os melhores argumentos que leva a melhor, mas aquele faz mais ruído. Hoje em dia, isso é mais fácil do que nunca.

Em segundo lugar: quando o trabalho rende cada vez menos. Alguns esforçam-se, outros aproveitam-se com isso. No final, o trabalhador pergunta-se por que razão continua a esforçar-se.

Em terceiro lugar: quando os vigaristas são admirados. Aquele que leva a melhor pela astúcia é considerado um espertalhão. Aquele que permanece honesto, um ingénuo.

Em quarto lugar: quando a moral é usada para destruir outrem. Já não se trata de se ser melhor, mas de fazer com que os outros pareçam piores.

Em quinto lugar: quando a reputação importa mais do que o bom comportamento. O essencial é parecer correcto. O que realmente se faz interessa pouco.

Em sexto lugar: quando as crianças já não podem ser crianças. Têm de intervir cedo nas conversas, manifestar uma opinião desde cedo e abordar problemas que até os adultos têm dificuldade em resolver.

Em sétimo lugar: quando há mais compreensão para com os culpados do que para com as vítimas. O dano é explicado de todas as maneiras, o sofrimento é relativizado. A responsabilidade evapora-se.

Em oitavo lugar: quando o absurdo é vendido como normal. O que outrora fazia encolher os ombros é hoje visto como um progresso. Aquele que duvida incomoda.

Em nono lugar: quando seguir a corrente é mais seguro do que reflectir. Mais vale aquiescer em silêncio do que fazer-se notar. Mais vale fazer parte do grupo do que contradizer.

Em décimo lugar: quando a política se torna uma questão de self-service. Promete-se proximidade, vive-se a distância. Aqueles que pagam são sempre os mesmos.

⦁ Condenado à morte por ter feito perguntas

Sócrates fazia este tipo de perguntas publicamente. Demasiadas perguntas, e demasiado incomodativas. Foi acusado de “corrupção da juventude” e de “impiedade”.

Em 399 a.C., foi condenado à morte em Atenas. Não pela espada, não pela forca. Teve de beber a cicuta. Fê-lo calmamente; primeiro as suas pernas cederam, depois a respiração. O seu discípulo Platão descreve esta morte como uma última lição: permanecer lúcido, manter a calma até ao fim. Ele conseguiu-o como relata o seu aluno Platão, também porque acreditava na imortalidade da alma humana.

Talvez esteja aí o verdadeiro sentido desta história:

Sócrates não foi condenado por ter destruído alguma coisa, ou uma vida. Foi condenado por fazia perguntas. E o declínio de uma sociedade começa talvez ali onde fazer perguntas já não é uma atitude desejada, mas onde somente a aprovação é tolerada. E o renascimento começa ali onde o homem volta a tomar consciência da dignidade que o seu Criador lhe ofereceu.

Baseado em Meinrad Müller