Não havia torneiras em cada casa nem água canalizada em muitas aldeias portuguesas, e por isso a fonte era o coração da vida diária. Todas as manhãs, lá se via chegar as mulheres, com o lenço na cabeça e a bilha de barro debaixo do braço, prontas para encher de água fresca e boa.
Encostavam a bilha ao cano, deixavam a água correr devagar, e enquanto esperavam, aproveitavam para trocar as novidades com as vizinhas que também ali chegavam. A fonte, tal como o lavadouro, era ponto de encontro obrigatório, sabia-se ali tudo o que se passava na aldeia, desde os nascimentos às colheitas, dos casamentos às pequenas invejas do costume.
Depois, com a bilha cheia e pesada, seguia-se caminho de volta a casa, muitas vezes equilibrada com destreza à cintura ou ao ombro, um gesto que se aprendia desde pequena, observando as mães e as avós. Era trabalho diário, repetido sem falha, mas também momento de convívio e de pertença a uma comunidade que partilhava o essencial: a água que dava vida a tudo.
Hoje, as fontes de muitas aldeias continuam ali, silenciosas, algumas ainda a correr, outras já secas, mas todas guardando na pedra o eco de tantas idas e vindas, tantas bilhas cheias e tantas histórias trocadas à sua sombra.
Quem se lembra de ir à fonte buscar água com a bilha de barro?
