Em 9 passos.

Dois jovens estudantes do secundário estão a fazer um trabalho sobre justiça. Escolheram entre vários temas “o Ministério Público”.

Pediram-me uma pequena entrevista para o trabalho.

Ponderei e respondi:

Aceito, como modesto contributo e ser destinado a jovens.

1.ªPergunta

O que é o Ministério Público?

R: Nos estados democráticos modernos, existe uma Constituição(conjunto de regras que estabelecem os princípios gerais do estado, os direitos fundamentais dos cidadãos e os órgãos de soberania)

Na Constituição Portuguesa há 4 órgãos:

Presidente da República, Governo, Assembleia da República e Tribunais.

Nos Tribunais existem 2 estruturas paralelas:

A magistratura judicial

(Os Juízes) e o Ministério Público

(Os Procuradores)

O MP é uma estrutura administrativa, que tem por funções representar o estado, zelar pelo cumprimento das leis, superintender e controlar o trabalho das polícias…

A estrutura é hierarquizada como se fosse um Exército, com soldados, sargentos e oficiais.Tem um chefe:

Procurador-Geral da República.

Nomeado pelo PR, proposto pelo Governo legítimo, que foi escolhido pelos cidadãos, em eleições livres e democráticas.

E toda a estrutura deve obediência hierárquica ao PGR.

E é assim que devia funcionar.

Ou seja, um corpo da administração estadual, que superintende a investigação dos crimes, acusa e representa o estado (a comunidade)

em obediência à Constituição.

2.ª Pergunta

E não é assim que funciona ?

R: Não!

Não é! Paulatinamente, por razões que não tem cabimento aqui, o MP foi a pouco e pouco sendo transformado numa corporação.

E quem verdadeiramente lá manda, não é o chefe, PGR , não é o governo democraticamente eleito que o propôs, nem o Presidente democraticamente eleito que o nomeou.

3.ª Pergunta

Então quem lá manda?

R: São os próprios.

Através de um poderoso sindicato, que usa o MP para servir os seus interesses corporativos e a satisfação das insaciáveis reivindicações dos seus membros.

Interfere na produção legislativa e na gestão da estrutura.

4.ª Pergunta

Mas isso não desvirtua

os fins a que o Ministério Público está legalmente vinculado na Constituição?

R: Sim, por isso é que há muita gente que diz e escreve, que as “corporações”, esta e outras, sequestraram o estado de direito democrático.

Poderes não eleitos, sobrepõem-se à vontade expressa pelos cidadãos em sucessivas eleições livres e democráticas.

5.ª Pergunta

Onde fundamenta essa sua convicção?

R: Nos casos que quotidianamente enchem os telejornais, a imprensa escrita, as rádios e as conversas das pessoas.

Investigações que se arrastam durante anos, sem que se perceba porquê, violações gravíssimas dos direitos dos cidadãos, devassas da vida de cidadãos durante anos a fio, arquivamentos inexplicáveis…

6.ª Pergunta

E não é possível fazer nada para alterar essa situação?

R: Dificilmente!

O MP está praticamente em auto gestão.

Assumiu o poder numa estrutura do estado, uma simples substituição do PGR já muito dificilmente permite alterar o estado das coisas…

E isso é notório sobretudo nas últimas nomeações.

Quem manda no MP, subliminarmente, é a corporação…

Provocam tais intrusões nos direitos fundamentais dos cidadãos, que as pessoas já têm medo de reagir.

E os que reagem cai-lhes a “máquina” em cima, com todo o seu poder.

Não a da justiça, mas a da corporação.

7.ª Pergunta

Há casos desses?

R: Há! Muitos…

Há 3 que são paradigmáticos:

Um 1.º ministro de um governo de maioria absoluta caiu.

Está há 2 anos para saber aquilo de que é acusado, e porque que é que está a ser investigado…

Um juiz desembargador esteve vários anos sob devassa total da sua vida privada…

E quando a mesma findou sem qualquer acusação, não lhe permitem tomar conhecimento do conteúdo da devassa.

Uma procuradora geral adjunta, ergueu a sua voz publicamente, em escritos certeiros contra este estado de coisas…

Foi imediatamente alvo de processo disciplinar…

8.ª Pergunta

Isso pode criar receios nos cidadãos?

R: Pode e deve!

E a pergunta legítima é:

Se “eles” fazem isto contra um 1.º Ministro,

um Juiz desembargador em exercício de funções

e uma Procuradora Geral Adjunta…

O que é que não é possível fazerem contra cidadãos anónimos, que não têm meios de reação nem conhecimentos para reagir…

9.ª Pergunta

Está portanto muito cético relativamente ao futuro?

R: Eu e muita gente.

Pelo que vejo e oiço são cada vez mais as pessoas que erguem a voz contra esse estado de coisas,

não são apenas as 100 personalidades do manifesto de justiça, são cada vez mais muitos Juízes , sobretudo de 2.ª instância, que já não estão sujeitos a um dever de reserva tão restrito, que têm erguido e levantado a sua voz contra esse estado de coisas…

Muito obrigado.

Foi um gosto.

ᴾᵃᵘˡᵒ ᴬʳᵃᵘ́ʲᵒ