A campanha para as eleições presidenciais de 2026 está longe de ser feita apenas de discursos, debates televisivos e arruadas tradicionais. Em ano eleitoral, há candidatos que perceberam que a imagem também se constrói sobre duas rodas e, curiosamente, o mundo das motos começa a ganhar protagonismo na corrida a Belém.

Entre passeios simbólicos, apoios vindos do MotoGP e vídeos virais com saltos em pista de off-road nas redes sociais, o motociclismo entra, pela primeira vez de forma clara, no imaginário da campanha presidencial portuguesa. Abordamos as ações de campanha dos cinco principais candidatos, ou pelo menos daqueles que são, pelas diversas sondagens, os únicos com capacidade para obter votos suficientes no dia 18 de janeiro, para irem a uma segunda volta e chegar a Belém.

E, como a campanha ainda tem mais algumas horas, tudo é possível que aconteça!

Miguel Oliveira entrou na campanha de Luís Marques Mendes

Luís Marques Mendes trouxe a competição ao mais alto nível para a sua candidatura. A campanha do candidato apoiado pelo PSD confirmou, em julho do ano passado, o apoio público de Miguel Oliveira, piloto português de MotoGP e uma das figuras mais reconhecidas do desporto nacional.

miguel oliveira

O anúncio coincidiu com a grande concentração de motos em Faro, evento que reuniu mais de 20 mil motociclistas, reforçando a ligação simbólica entre o candidato e o universo das duas rodas. Miguel Oliveira integra a estrutura da campanha desta candidatura, com o cargo de mandatário para a área do Desporto.

O próprio Marques Mendes fez questão de assinalar o encontro nas redes sociais, publicando uma fotografia ao lado do piloto: “Estive hoje com o Miguel Oliveira, um jovem português em alta no motociclismo. Alguém que mobiliza os jovens e orgulha o país. Este jovem tem mesmo espírito de campeão”.

O gesto não passou despercebido, associar a candidatura a um atleta de alta performance, jovem, internacional e respeitado é uma jogada estratégica clara, até porque se desconhece qualquer experiência de andar de moto ao candidato do PSD.

Gouveia e Melo na mítica N2 numa Harley-Davidson

Henrique Gouveia e Melo protagonizou um dos momentos mais inesperados da pré-campanha ao surgir de moto no quilómetro zero da Estrada Nacional 2, em Chaves. O candidato independente montou uma Harley-Davidson, junto ao marco simbólico da estrada que atravessa Portugal de lés a lés, num gesto que rapidamente chamou a atenção de curiosos, jornalistas e redes sociais.

“É a primeira vez que ando numa Harley”, gracejou, antes de arrancar com alguma dificuldade, não pela falta de experiência, mas eventualmente pelo peso da moto. O ex-Chefe do Estado-Maior da Armada fez um curto percurso de cerca de cinco minutos, terminando na rotunda que assinala o início da EN2 rumo a Faro, ao quilómetro 739.

Questionado sobre se conseguiu evitar quedas, respondeu com humor: “Isso era só o que faltava”, garantindo que está habituado a “Conduzir coisas mais difíceis do que uma moto”. Um momento informal, espontâneo e altamente fotogénico, tudo o que as campanhas modernas procuram.

André Ventura nesta campanha não andou de moto

Nas eleições legislativas de maio do ano passado, no oitavo dia de campanha, a caravana do Chega rumou a Castelo Branco para um almoço-comício ao ar livre, sob um sol intenso e com sandes de porco no espeto no menu. A chegada de André Ventura não passou despercebida.

O líder do partido chegou de moto, no lugar do pendura, equipado com capacete e blusão. A conduzir a Yamaha FJR1300 vinha o deputado e cabeça de lista por Castelo Branco, João Ribeiro.

Ventura explicou na altura a opção: “Não posso ser eu a conduzir porque não tenho carta de moto. Gosto de cumprir as regras”.

Desta vez nem à pendura andou, mas também, fazer campanha em maio ou em janeiro, são coisas diferentes e entre frio e chuva as motos ficaram até ao momento de fora da campanha de André Ventura. Está na altura de Ventura tirar a carta de moto, não se arrependeria!

Cotrim Figueiredo leva a campanha para o off-road

João Cotrim Figueiredo, candidato presidencial e ex-líder da IL, recorreu às duas rodas como elemento de proximidade e autenticidade. No podcast “Mala Feita para Belém”, da Rádio M80, falou da experiência, da relação pessoal com a condução de motos e do simbolismo das duas rodas enquanto expressão de liberdade, responsabilidade e escolha individual.

Residente em Lisboa e sendo que não pretende mudar-se para Belém se for eleito, o Palácio vai ser local apenas de trabalho, Cotrim Figueiredo poderá continuar a andar de moto no trânsito da capital, pois respondendo à pergunta dos entrevistadores sobre qual o objeto que levaria na mala para Belém, respondeu: “Não cabe na mala, é a minha moto!”.

Já esta semana, o candidato andou de moto no Bianchi Prata Off-Road Center, espaço de referência para a prática de todo-o-terreno em Portugal. A experiência foi partilhada nas redes sociais, reforçando a imagem de contacto direto com a prática motociclística, longe do alcatrão e do registo formal de campanha.

No que toca a motos, Cotrim Figueiredo é o candidato que demonstra uma maior paixão e à vontade com as duas rodas a motor, sendo um motociclista assumido.

António José Seguro não anda de moto

O antigo secretário-geral do PS não teve nenhuma interação pública conhecida com o mundo das motos durante a campanha até ao momento. Ao contrário de Pedro Nuno Santos, o anterior líder socialista, que é motociclista e tem moto própria que inclusivamente utilizou na campanha das eleições legislativas do ano passado, Seguro não se lhe conhece nenhum interesse pelas duas rodas a motor.

O mais próximo que pudemos testemunhar foi uma breve volta de bicicleta elétrica no interior da fábrica que as produz na região de Portalegre, fora isso, nada de relevante nesta campanha no que toca à aproximação do eleitorado motociclista. Uma pena, chegaria sempre seguro, mais cedo e muito mais bem disposto a todo o lado, seja em campanha ou não.

Redes sociais, motos e política: um novo palco eleitoral

Os vídeos e publicações associadas a estes momentos, tanto no Instagram como no Facebook, acumulam visualizações, comentários e partilhas, provando que o motociclismo funciona como veículo de proximidade, autenticidade e emoção, algo cada vez mais valorizado pelos eleitores.

Ainda que não seja um tema central da campanha presidencial, as motos surgem como símbolo de liberdade, percurso, risco calculado e carácter, valores que os candidatos procuram, consciente ou inconscientemente, projetar.

Nunca como agora a política portuguesa olhou com tanta naturalidade para o mundo das duas rodas. Seja numa Honda CRF aos saltos em pista, numa Harley-Davidson a arrancar na N2 ou através do apoio de um piloto de MotoGP, as motos entraram oficialmente na campanha presidencial de 2026.

E se não decidem eleições, pelo menos aceleram a atenção mediática, algo que, em campanha, vale ouro.

No próximo domingo, dia 18 de janeiro, Portugal elege o novo chefe de Estado, não deixem de ir votar num destes candidatos ou num dos outros seis aqui não mencionados e expressar a vossa escolha para o mais alto cargo da nação!

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