Por vezes, apetece-me ser sarcástico. Tive a felicidade (ou a infelicidade) de estudar em Lisboa. Numa época na qual já existia uma certa sobranceria intelectual (que parece manter-se) em relação a Trás-os-Montes e aos Trasmontanos. Aliás, quando «aterrei» em Lisboa, senti-me um alienígena, porque tinha uma comissão de recepção na instituição para a qual fui, porque «vinha um trasmontano».
Foi mesmo um episódio raro de se ver. Considerei mesmo anómalo, saloio até, ter essa comissão à espera de uma pessoa vulgar, como tantas outras. Estranhamente, não cheguei de burro, não tinha uma «bigodaça farfalhuda», nem levava comigo nenhum garrafão de vinho ao ombro. Para lá disso, mesmo com algum natural sotaque, conseguia falar Português! Coisa assombrosa!…
Uma das coisas que mais me surpreendeu, nos anos que passei em Lisboa, não foram, propriamente, os Lisboetas. Mas os «adaptados». Aqueles que tudo faziam para esconder as suas origens. Esses, eram os piores! Desconheço se essa característica se mantém… Mas sobre a sobranceria intelectual, dúvidas não me restam. Julgo já o ter partilhado por aqui, um dia, uma professora bem conhecida, mandou-me uma «boca indelicada», dizendo: «Cale-se lá, ó Trasmontano, não sabe que Lisboa é Portugal, e o resto é paisagem?»… Respondi-lhe, com toda a calma do mundo: «Está equivocada.
O Norte é que é Portugal, o resto são conquistas. Se não fossem os meus antepassados, ao invés de ser uma professora indelicada, estaria a servir num harém»… Uma outra figura muito conhecida, numa discussão na cantina da instituição onde ambos estudávamos, atreveu-se a dizer, perante uma opinião contrária: «Quem pensa assim, só pode ser burro. Não se pode esperar outra coisa de um Trasmontano». Ato contínuo, perguntei-lhe se teria coragem para me dizer isso sem a presença dos seus «correligionários»… Haveria de surgir a oportunidade, nuns «copos» no Bairro Alto, para ser brindado com um pedido de desculpas. À custa dessa postura, acabaria por ganhar, como alcunha, o nome de um revolucionário com o qual, coincidentemente, nem tenho grandes afinidades…
Mais tarde, já noutros âmbitos, ganharia uma outra alcunha, provinda de «nuestros hermanos». Porque não admitia a ninguém que falasse mal ou troçasse do meu país. E fiquei conhecido através da versão «espanholada» do que dizem ter sido o nosso primeiro rei.
Um dia, numa convenção em Itália, um desprevenido italiano lembrou-se de, na mesa onde estávamos, zombar de Portugal e dos Portugueses, desconhecendo que estava o «Don Alfonso Henriquéz» na mesa. Alguém ainda o tentou avisar, mas já não foi a tempo. Naturalmente, a coisa «azedou» e surgiria o «miscuso per l’inconveniente». E porque trago aqui estas histórias?
Por causa das «Tétés» e dos «Pépes», que ainda crêem viver no «Antigo Regime», ou no tempo da «Velha Senhora»… «Tão a vêre, tão queriduchos?»… Continuo a não andar de burro, mas imenso orgulho tenho em tê-lo feito inúmeras vezes. Assim como orgulho imenso tenho no «Burro Mirandês». Continuo a não ter «bigodaça farfalhuda», nem a andar de garrafão ao ombro. Mas gosto de uma boa “pinga”… Porém, acima de tudo, tenho um apreço especial por dizer aos sobranceiros intelectuais, às «Tétés» e aos «Pépes», que se baseiam na Wikipédia ou num qualquer excerto providenciado por IA, aqui de forma eufemista, um “inde-bus todus p’ró carbalhu que bus racontracosa”… Com especiais saudações a partir deste canto Nordeste…
Com todo o respeito para as «não-Tétés» e para os «não-Pépes»…
ᴿᵘᶦ ᴿᵉⁿᵈᵉᶦʳᵒ ˢᵒᵘˢᵃ
