O frio, por exemplo. Em Valpaços ele chega sempre com aquela precisão que quase parece um relógio antigo. Não pede licença. Instala-se na pele, nas mãos e no silêncio das manhãs. Mas, apesar do rigor, há uma beleza ali que não se explica, sente-se.

Dizem muitas vezes que em Trás os Montes o frio entra pelos ossos. E é verdade. Mas também há outro ditado que ouvimos desde pequenos. Depois do S. Martinho, lume no caminho. É simples, é dos antigos, e descreve bem esta terra onde o frio não é só temperatura, é memória. Faz parte da paisagem, do ritmo da vida, da forma como crescemos.

Quando penso nesta estação, penso nas poucas regiões onde o inverno se mostra assim. Bragança, Vinhais, Chaves, Vila Real. Lugares onde a geada pinta os campos de branco e onde o ar puro parece cortar o pensamento ao meio, deixando espaço para o que é simples. E há algo de profundamente bonito nisso. O frio obriga nos a abrandar, a recolher, a olhar para dentro. A valorizar o calor, o lume, a companhia, a sopa que ferve devagar na panela.

No fundo, o frio de Trás os Montes ensina uma coisa que a vida às vezes esquece. O que custa também fortalece. O inverno rigoroso prepara a terra para o que há de vir. Faz crescer de maneira invisível. E nós não somos muito diferentes.

Por isso, sempre que o frio aperta, lembro me daquele silêncio grande das manhãs de Mirandela e sinto que, mesmo quando tudo parece gelado, há sempre algo a nascer por baixo. O frio é duro, mas nunca é estéril. E talvez seja por isso que esta terra aquece tanto quem nela cresceu.

ᴾᵃᵘˡᵒ ᴬʳᵃᵘ́ʲᵒ