Hoje, um homem que nunca foi à tropa, que nunca marchou, nunca dormiu em camaratas geladas, nunca sentiu o peso do silêncio antes de uma missão, decidiu vestir a farda militar. E não o fez por dever, por treino ou por honra. Fê-lo por conveniência política. Por imagem. Por palco.
Esse mesmo homem defende o regresso do serviço militar obrigatório. Mas nunca passou pela recruta. Nunca ouviu um “sentido!” que lhe fizesse arrepiar a espinha. Nunca teve de obedecer sem discutir. Nunca teve de confiar num camarada sem saber o seu nome. Nunca foi soldado. Mas veste a farda como se fosse.
Para nós, ex-militares, e eu, que servi nas brigadas da NATO, isto não é só um gesto infeliz. É um desrespeito. A farda não é um adereço. Não é um casaco bonito com nome bordado. É um símbolo de entrega, de sacrifício, de disciplina. É o que nos une, mesmo quando já não estamos no ativo. É o que nos faz levantar a cabeça quando o país esquece quem o defendeu.
Vestir a farda sem a ter merecido é como usar medalhas que não se ganharam. É como cantar hinos que não se sentem. É como falar de coragem sem nunca ter enfrentado o medo.
Não se trata de política. Trata-se de respeito. Respeito por quem serviu. Por quem caiu. Por quem ainda hoje vive com as marcas do que foi. Por quem sabe que a tropa não é só treino, é transformação.
E se alguém quer defender o regresso da tropa obrigatória, que comece por reconhecer o valor de quem lá esteve. Que ouça os ex-combatentes. Que visite os que ficaram com feridas que não se veem. Que compreenda que a farda não se veste, conquista-se.
Aos que serviram, o meu abraço. Aos que fingem servir, a minha exigência de respeito.
ᴾᵃᵘˡᵒ ᴾⁱⁿʰᵉⁱʳᵒ
ᴱˣ⁻ᵐⁱˡⁱᵗᵃʳ ᵈᵃˢ ᵇʳⁱᵍᵃᵈᵃˢ ᵈᵃ ᴺᴬᵀᴼ
