Não havia ilusões, não havia máscaras, não havia “influencers” a vender vidas perfeitas.
Havia trabalho duro, mãos calejadas, roupas remendadas, e uma dignidade que hoje parece impossível de explicar a quem não a viveu.
Éramos um povo humilde, solidário, sofrido, mas inteiro.
E acima de tudo, havia uma coisa que hoje se perdeu: respeito.
Respeito pelos mais velhos, pelos vizinhos, pelos professores, pela palavra dada, pela vida dos outros.
Na maioria, a pobreza era real mas a vergonha era outra.
As casas eram frias no inverno e quentes no verão.
Dormia-se com cobertores pesados, não com aquecimento central.
A água quente era um luxo, e o banho era um ritual, não um capricho diário.
As mães faziam milagres com panelas de ferro e tachos gastos.
Os pais trabalhavam de sol a sol, sem choramingar, sem reclamar, porque sabiam que a vida era dura para todos.
E no entanto, ninguém se sentia “pobre” como hoje se sente.
Porque a pobreza era geral, e a dignidade era comum.
A rua era a nossa escola.
Crescemos na rua, a jogar à bola em terrenos baldios, a correr atrás de pneus velhos, a inventar brinquedos com paus, pedras e imaginação.
As bicicletas passavam de mão em mão, os cromos trocavam-se como tesouros, e os verões pareciam eternos.
Não havia telemóveis, mas havia campainhas tocadas com força.
Não havia redes sociais, mas havia vizinhos que sabiam o nome de toda a gente.
Não havia GPS, mas sabíamos o caminho de casa pelo cheiro do jantar.
A solidariedade era automática, natural, instintiva
Quando alguém ficava doente, apareciam sopas, pão, chá, e uma mão no ombro.
Quando alguém perdia o emprego, arranjava-se trabalho “nem que fosse só para ajudar”.
Quando alguém chorava, não chorava sozinho.
Hoje fala-se muito de empatia.
Naquele tempo não se falava praticava-se.
O respeito era lei e não precisava de ser explicado
Os mais velhos eram tratados por “senhor” e “senhora”.
Os professores eram figuras quase sagradas.
Os pais não eram “amigos” eram pais, e isso bastava.
E a palavra dada valia mais do que qualquer contrato.
Havia limites, havia educação, havia vergonha na cara.
E isso segurava o país inteiro, mesmo quando o dinheiro não segurava nada.
A vida era dura mas era verdadeira
Lembro-me das feiras, dos pregões, dos mercados cheios de vozes e cheiros.
Lembro-me das aldeias onde toda a gente se conhecia.
Lembro-me das festas populares, das sardinhas, dos bailaricos, das luzes penduradas com arame.
Lembro-me de ver os adultos conversar horas à porta de casa, como se o tempo fosse infinito.
Hoje temos tudo e falta-nos tudo.
Temos conforto, mas não temos comunidade.
Temos tecnologia, mas não temos tempo.
Temos liberdade, mas não temos limites.
Temos riqueza, mas perdemos a humildade.
O que dói não é o passado é o que perdemos pelo caminho.
Não sinto saudades da pobreza.
Sinto saudades da humanidade.
Da simplicidade.
Da união.
Da certeza de que, mesmo com pouco, éramos muito.
Hoje cada um vive para si, cada um fecha a porta, cada um olha para o telemóvel em vez de olhar para o vizinho.
E às vezes penso: não foi a pobreza que nos fez sofrer foi a riqueza que nos fez esquecer.
O meu tempo não era perfeito mas era honesto.
E talvez seja isso que me faz escrever estas palavras com um nó na garganta.
Porque no meu tempo, mesmo com fome, frio e dificuldades, havia algo que não se compra, não se vende e não se recupera: a certeza de que pertencíamos uns aos outros.
Paulo Araújo
