… O parente pobre do Ministério da Administração Interna
“Boa tarde, Bombeiros Voluntários de Valpaços…”, passam dois minutos das 15h00 do dia 15 de abril, houve tempo apenas para a troca de operador e o telefone tocou e voltou a tocar. Há de repetir-se várias vezes ao longo da jornada de trabalho da Bombeira Ana que dura até às 22h00. É um dia como qualquer outro nos Bombeiros Voluntários de Valpaços, apenas a presença da equipa do jornal Valpaços Online, que veio passar a tarde com os profissionais de serviço, comandante e Presidente da corporação.
Iniciamos a visita no Posto de Controle, onde tudo se passa, se decide e se organiza. São inúmeras chamadas de socorro, estando sempre equipas prontas para a reação ao socorro. São organizados, diariamente, os serviços de apoio ao doente, transporte de doentes para tratamentos, exames e consultas. E, é daqui que, igualmente, saem os operacionais de combate ao incêndio, seja rural ou urbano.
O telefone toca e a reação é imediata, são ativados os meios necessários, seja qual for a emergência. Os operacionais preparam-se para sair e ocupam a(s) viatura(s) adaptada(s) à ocorrência.

Os operacionais têm ao seu dispor equipamentos adequados para incêndio rural, urbano, socorro e mais recentemente um novo “membro” da equipa, o LUCAS. E questionam “Quem é o LUCAS?” o LUCAS é um elemento de extrema importância nesta corporação pois garante que aquando da vítima em paragem cardio respiratória a reanimação seja constante e imediata. O LUCAS é uma marca. Um nome humano mas é um equipamento. Um equipamento que permite reanimar a vítima em mobilização. Podia ser um profissional, mas é o LUCAS. O LUCAS é único, só existe um LUCAS e é o primeiro a sair. Não há mais nenhum LUCAS na corporação mas eram necessários mais LUCAS, num concelho em que uma grande parte das emergências de socorro são paragens cardio respiratórias. E porque não há mais LUCAS? Não há mais LUCAS porque a corporação tem de gerir o dinheiro ao cêntimo. A Câmara Municipal apoia a corporação com verbas definidas e, ocasionalmente, sempre que necessário, ajuda na aquisição de viaturas e equipamentos, mas há muitas mais necessidades.

O Estado, o Ministério da Saúde, paga pouco, mal e a más horas.
Em Valpaços, o Sr. Samões (Intermarché) tem os Bombeiros como a sua causa, estando sempre presente nos momentos mais difíceis.
A Padaria Juvenal garante o pão e outros alimentos.
E nós, enquanto cidadãos, o que damos? O que garantimos? O que apoiamos? Mas no caso de necessidade eles (Bombeiros), estão lá para nós, embora nós sejamos os primeiros a apontar o dedo, a criticar, a maldizer… sem sequer questionarmos se aquele homem/mulher está ali por amor ou por dinheiro. Sim, é verdade que muitas vezes os Bombeiros estão por amor ao dever e à causa, pois nem sempre são remunerados pelo serviço.
A época de incêndios abre a 15 de maio, mas os incêndios não se compadecem com data, hora, feriados e fins-de-semana, muito menos cumprem calendário, sendo exemplo disso os recentes incêndios que houveram no nosso concelho, cerca de 30, bastando para isso o elevar das temperaturas e o brilho do sol. Os Bombeiros, esses, estiveram lá, viraram o dia e a noite, lutando contra o fogo, evitando que os prejuízos se alastrassem ou chegassem a povoações. Esse serviço prestado foi gratuito! Sim, gratuito! O combate aos incêndios só é remunerado na época definida, no caso, de 15 de maio a 15 de outubro, no valor de 84€ por 24h de serviço.
Já alguém se questionou se aquele(s) Bombeiro(s), que chegou a casa às 5h00 da manhã, descansou antes de ir para o seu trabalho, seja ele profissão de bombeiro ou outra? Pois, não descansou. Não ganhou qualquer valor de retribuição, apenas prestou um serviço ao seu concelho e ao cidadão. Se isto não é altruísmo, o que será altruísmo…
Por falar em altruísmo, os nossos Bombeiros são o que melhor exemplifica o dar sem esperar nada em troca. Vestem fardas usadas ou que findaram o prazo de validade, adquiridas a corporações estrangeiras. Usam material/equipamento comprado em segunda mão a outras corporações (estrangeiras), melhor apetrechadas, com tecnologia de ponta e equipamentos de último “grito”. Esta é a nossa realidade.
A corporação de Valpaços vai ter, pela primeira vez em muitos anos, capacetes e algumas roupas/fardas novas, algo que é quase digno de ficar na história da mesma, tendo em conta o exposto no parágrafo anterior.

Esta corporação conta com 88 elementos, sendo 43 profissionais e permanentes. Desses 43 elementos alguns já não vão para o teatro de operações, seja socorro, sejam incêndios, uma vez que a idade já é avançada e a agilidade e resistência não são as mesmas, podendo pôr em causa a sua própria vida.
Os Bombeiros não são reconhecidos como profissionais de desgaste rápido. Irônico, depois de tudo que se conhece da profissão. Pergunto, quando será que algum governo olha para os Bombeiros com a dignidade que eles nos merecem? Quando será que algum governo se lembra que os Bombeiros existem para além dos cinco meses da época dos incêndios?
Corporações há neste país que já não têm crédito para combustível, crédito para refeições, crédito para reparações de veículos… não é o caso de Valpaços, muito graças à relação entre a Associação de Bombeiros e o Município, que se baseia na entreajuda e na cooperação.
Torna-se imperativo afirmar que cada vez mais se politiza um serviço humanitário, sendo exemplo disso as épocas de eleições, sobretudo autárquicas, em que as procissões políticas em modo de romaria se fazem presentes em todas as corporações, sendo as selfies e/ou fotos a prova dos beneméritos políticos. Os candidatos autárquicos apressam-se a prometer apoio às corporações, por vezes promessas desajustadas à realidade e que serão esquecidas por mais quatro anos até que as próximas eleições se avizinham. Precisarão os Bombeiros de ser usados em campanhas políticas, não precisam! Estes seres já são usados pelo sistema e pelos cidadãos que apenas os valorizam na desgraça, esquecendo a sua existência nos outros dias.

É comum abrirem jornais nacionais, ou saírem na primeira página dos jornais, quando os incêndios não dão tréguas, as cheias não pedem licença para avançar sobre terrenos outrora repletos de culturas e/ou entrarem pela casa dos cidadãos, ou na morte de algum Soldado da Paz (designação usada apenas em tragédia) em serviço ao cidadão. E depois desse sensacionalismo, alguém se lembra deles(as)? Alguém questiona se a corporação tem dinheiro para adquirir veículos adaptados aos caminhos íngremes ou desencarceramento devidamente equipados, gasóleo…?
Quantos cidadãos de Valpaços são sócios e pagam as quotas da Associação de Bombeiros?
Quantos empresários de Valpaços fazem uma doação, seja anual, semestral, trimestral ou mensal à Associação?
Quantos cidadãos de Valpaços olham para um elemento da corporação com gratidão, admiração, respeito…?
Quantas vezes ouvimos “É Bombeiro, não sabe fazer mais nada. Não gosta de trabalhar”? Não sejamos hipócritas, porque é isso que se ouve com frequência e, por vezes, da boca de pessoas ingratas e indignas.
A visita continuou, deixando em nós uma sensação de vazio e ignorância, por nunca termos tido a humildade de questionar-mos.
O Sr. Comandante Luís Nogueira, e o Sr. Presidente Amílcar Mesquita, foram incansáveis. Começamos no posto de controle, onde tudo tem o seu início e seguimos para o parque de veículos de socorro, sejam ambulâncias, veículos de combate ao incêndio, veículos de todo-o-terreno, veículos de desencarceramento, veículos de transporte de àgua… uma imensidão de veículos, devidamente equipados, por forma a servir a população nos momentos de maior necessidade e angústia. O foco é sempre servir, servir com altruísmo.

Mais uma vez esta corporação reutilizou algo que pertenceu a corporações estrangeiras, no caso, veículos, para eles já desatualizados mas para a corporação de Valpaços um ativo extremamente necessário e útil. O mesmo se passa com os equipamentos, muitos deles usados a quem foi dado uma segunda vida na Associação de Valpaços. A Associação faz, diariamente, uma gestão ao cêntimo, lutando para cumprir com todas as suas obrigações.
Para que possamos constatar a mais valia e utilidade desses equipamentos, o Sr. Comandante solicitou a alguns elementos da corporação uma demonstração, podemos assim assistir, in loco, à expertise dos elementos e eficácia dos equipamentos.
A tarde ia decorrendo sem nos apercebermos do avançar da hora, tal era o nosso entusiasmo, percebemos que o sol já se punha quando nos deslocamos para o parque de estacionamento recém inaugurado e nos apercebemos do regresso dos veículos ao serviço da saúde. Os bombeiros motoristas, de forma profissional, higienizam os veículos e repõem o material para o dia seguinte.
Não podíamos encerrar a visita sem conhecer o Iteams, um programa do INEM, sendo Valpaços a primeira corporação de Trás-os-Montes a trabalhar com o mesmo. O programa é fornecido pelo INEM mas os equipamentos, presentemente quatro portáteis, foram adquiridos pela Associação, para que a corporação possa prestar um serviço de excelência, de tal forma que lhes valeu dois prémios a nível nacional pelo trabalho efetuado na passagem de dados em suspeitas AVC. A equipa qualifica os dados no sistema sobre o doente e o hospital que o recebe tem acesso a toda a informação, o que faz toda a diferença no socorro e posterior tratamento hospitalar. Obviamente, os Bombeiros que prestam serviço no socorro, e sobretudo neste serviço possuem formação adequada e certificada, paga pela Associação.

O programa Iteams tem em si a importância extraordinária de referenciação, pois no caso do doente já ter sido socorrido e cadastrado no Iteams, aquando de um novo socorro, a ficha dele aparece devidamente referenciada com o histórico, facilitando o socorro e o atendimento hospitalar.
Finalizamos a nossa visita conhecendo o auditório e constatando que a Associação está a recolher informações, fotos e espólio para um futuro museu.
Há que reconhecer o apoio que a empresa Houseready prestou nas obras de restauro das camaratas, quer masculinas, quer femininas, por forma a que estes homens e mulheres tenham condições de descanso e higiene pessoal, condignas.
Ficamos extremamente gratos ao Sr. Comandante e Sr. Presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Valpaços, bem como, a todos os elementos de serviço nesta tarde, que tudo fizeram para que a nossa visita fosse o mais pormenorizada possível.

O Santo Padroeiro dos Bombeiros de Valpaços, São João, certamente, usou a sua influência junto do seu superior por forma a que a tarde fosse calma a nível do socorro.
Recolhemos material para mais uma edição sobre os Bombeiros, que guardaremos para, oportunamente, fazermos uma edição sobre incêndios urbanos.
Deixamos um desafio à população de Valpaços, algo simples: Façam-se Sócios da Associação de Bombeiros, são 20€ anuais, apenas 20€, mas podem fazer toda a diferença, numa gestão feita ao cêntimo e ao dia. Os Bombeiros prestam um serviço à comunidade e todo o apoio que lhes prestamos é-nos devolvido em qualidade de serviço prestado.
Qualquer cidadão pode fazer uma doação à Associação de Bombeiros para além da quota anual. Todo o dinheiro que entra na Associação como donativo é registado contabilisticamente e o benfeitor tem acesso ao recibo.

Deixamos este simples desafio, 20€ anuais. Futuramente, numa edição dedicada a incêndios urbanos lançar-vos-emos um outro desafio.
LEMBREM-SE QUE, AQUILO QUE DOAIS HOJE SERÁ O QUE VOS SALVARÁ AMANHÃ.
