Lara, pequena borboleta colhida antes do tempo,
Escrevo-te com o peso de um mundo que falhou. Um mundo podre, cada vez mais inconsciente e desprovido de alma, onde já nem a palavra “selvagem” serve de metáfora ,porque até na selva há uma lógica sagrada de sobrevivência, e o que te fizeram carece de qualquer humanidade.
Desculpa, pequena Lara. Desculpa por ninguém ter notado, a tempo, que o perigo rondava os teus passos silenciosos. As pessoas caminham cegas, demasiado ocupadas com a pressa e com o ruído de um quotidiano egoísta, incapazes de ver que os mais vulneráveis gritam em silêncio e só precisam de um colo, de um refúgio, de proteção.
Desculpa, Lara, pela ingenuidade cega do teu progenitor, que não te soube proteger do monstro que partilhava o ar contigo dentro dessas quatro paredes. E perdoa a tua mamã, que, mesmo perdida no labirinto denso da depressão, ainda lutava para te arrancar das garras da criatura que te alimentava. É uma ironia atroz e visceral: quem deveria ter sido o teu primeiro escudo foi o primeiro a negligenciar-te, abrindo a porta ao teu carrasco. Peço-te perdão pela incoerência deste mundo, pela sua forma venenosa e hipócrita de gerir a infância, e pela cobardia cúmplice dos outros, daqueles que quase sempre sabem, que desconfiam da sombra, mas escolhem o silêncio e não denunciam.
Como é possível que uma suposta visita ao médico, uma mentira tão banal e quotidiana, te tenha conduzido clinicamente à frieza de uma mesa de autópsia? Ali jaz agora o teu pequeno corpo, gélido e sem vida. Mas não tenhas medo, meu anjo. Não voltes a ter medo. Ali já nada te magoa, já nada te aperta a garganta, já nada dói. Que o teu espírito, agora luminoso e liberto da matéria corrompida, encontre a paz definitiva, longe, muito longe do monstro que te consumiu barbaramente.
Ao monstro que te ceifou a primavera, eu não desejo justiça terrena; desejo-lhe a consumação do próprio inferno. Desejo-lhe tempos de tormento asfixiante, onde o ar lhe corte os pulmões a cada arquejo, e que o coração negro que alberga no peito se desfaça como areia escura, removendo-lhe lentamente a vida com as dores mais atrozes que a carne humana pode suportar. Que a tua carinha linda, o teu olhar puro e aterrorizado daquela tarde, seja a imagem fixa a queimar-lhe a retina sempre que fechar os olhos. Desejo-lhe a morte mais selvagem e implacável, porque ninguém, nenhuma criatura, tem o direito de roubar a luz a um ser tão inocente.
Aos tribunais deste país, resta-me esperar que não se escondam atrás de tecnicidades frias. Que te façam justiça e que a condenação deste demónio vestido de madrasta seja apenas o primeiro degrau da sua descida ao abismo. Mas a minha fé não reside nos homens; acredito muito mais na justiça divina, e a essa peço que seja severa, implacável e eterna.
Para ti, Lara, e para todas as Laras deste mundo que sofrem na sombra de lares que deviam ser templos e são masmorras: peço perdão em nome de uma humanidade falhada. Somos cobardes, somos maliciosos. Somos, no fim de tudo, apenas um punho de nada.
Dorme em paz, pequena Lara. A tua dor terminou; a nossa vergonha será eterna.
Adelaide Oliveira
