Há uma coisa na restauração que sempre me despertou curiosidade.

Quem anda em restaurantes certamente já encontrou algumas variantes do mesmo diálogo:

  • Não temos Multibanco.
  •  O Multibanco está avariado.
  •  Pode pagar em dinheiro?

Comecemos por deixar uma coisa clara: não ter Multibanco não é sinónimo de fuga aos impostos. Um terminal pode estar genuinamente avariado e receber em dinheiro é perfeitamente legítimo.

A questão interessante começa noutro ponto: quando o pagamento em numerário é acompanhado pela não emissão deliberada de factura.

E aí há uma pergunta que sempre me ocorreu:

  • Se não vai haver factura, onde está a minha parte?

Ouvimos frequentemente justificar a economia informal com o peso dos impostos: “O Estado leva tudo”, “o IVA é demasiado alto”, “assim não se consegue trabalhar”.

Muito bem.

Então seria de esperar que, numa operação deliberadamente não faturada, ilegal, sublinhe-se, o comerciante mete o imposto ao bolso?

Quando me pedem para pagar em dinheiro, a conta continua exactamente igual.

E é aqui que a coisa se torna interessante.

Porque, se uma operação não for faturada e a respetiva receita também não for declarada fiscalmente, o potencial benefício para quem a recebe não se limita ao IVA. Tem consequências sobre o rendimento ou lucro declarado e, consequentemente, sobre outros impostos.

Enquanto isso, o cliente pagou o preço por inteiro.

Ou seja, numa hipotética operação não declarada, posso ter pago no preço uma componente correspondente a impostos que depois não chegam ao Estado.

E isso leva-me a uma questão.

Da próxima vez que lhe disserem:

  • “Pode pagar em dinheiro?”

Não tenho qualquer problema.

Mas, se perceber que a pergunta pretende significar outra coisa, talvez responda:

  • “Posso. Qual é o desconto?”

Se a resposta for “nenhum”, também não há problema:

  • “Então passe-me a fatura, por favor.”

Não estou a acusar restaurantes que recebem em dinheiro de fugir aos impostos. Nem estou a afirmar que um Multibanco avariado seja sinal de fraude.

Estou apenas a separar duas coisas que não devem ser confundidas:

Receber em dinheiro é perfeitamente legítimo; ocultar deliberadamente uma venda ao Fisco não é. Sacar esse valor ao cliente ainda por cima o mínimo desrespeito.

Se eu pago um preço que inclui impostos como é meu dever, prefiro que esses impostos cheguem de facto ao Estado.

Até porque fui eu que os paguei, e não o estabelecimento.

Paulo Araújo